quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Uma visita guiada ao Palácio Rio Branco

Quantas vezes você já passou pela Praça Municipal de Salvador e viu um prédio diferente e bonito tirou umas fotos e foi embora? Se você já fez isso, tenho certeza que após ler este post você verá o Palácio Rio Branco com outros olhos e verá que vale muito a pena conhecê-lo. Na companhia da guia Géssica Neves vamos conhecer as belezas e a história deste Palácio.

Primeiro, dê uma olhada no estilo arquitetônico do prédio.

Estilo eclético reflexo do requinte da Belle Époque.


Realmente, é muito bonito. Mas antes desta construção houve várias outras. A primeira, em 1549, era de taipa de pilão. Depois, em 1663, foi construída uma de pedra e cal. Depois foi reconstruída em 1900 no estilo neo-renascentista e por fim, em 1919 foi reconstruído no estilo pré modernista. Recebeu o nome de um grande estadista brasileiro, Barão de Rio Branco.

Após bombardeio a restauração do palácio para reinauguração em 1919  com o nome de Palácio Rio Branco.                                                               Foto retirada da internet.

Esta edificação sofreu um bombardeio em 1912 com os tiros que partiram do Forte São Marcelo por causa de José Joaquim Seabra, candidato a governador da Bahia,  com ordens de Hermes da Fonseca, presidente do Brasil e apoiador de J. J. Seabra. Muito furioso esse governador hein!?

Atenção para a cúpula, esculturas e águias...

Agora, observe os detalhes da fachada do prédio. O estilo arquitetônico representa o estilo requintado daquela época, a Belle Époque. Os arquitetos responsáveis foram Julio Conti e Filinto Santoro. Há  duas esculturas de cada lado acima da porta de madeira pau darco que representam a sabedoria e a justiça. Olhe mais acima e temos a cúpula, na igreja ela recebe o nome de Domo que significa lar de Deus, nessa edificação significa um palácio ambicioso onde o governador recebe a chave do estado.


Posição estratégica do palácio: vista para baía e forte São Marcelo.

Vamos adentrar o edifício e conhecê-lo de pertinho. Seguindo do lado direito, atravessamos dois espaços até chegarmos numa varanda ampla com vista para Baía de Todos os Santos. Aqui temos uma noção da posição estratégica do Palácio de onde se podia ver os navios atracados na baía e o forte São Marcelo. No teto da varanda há um dragão voltado para o mar símbolo de poder.

Dragão: símbolo de poder
Seguimos para a sala de jantar. Ela é muito grande, não há mesas nem cadeiras é uma sala vazia, mas que nos faz imaginar os grandes eventos que aqui se realizavam. 

Teto de luxo estilo caixotão

Duas coisas me chamaram atenção nesta sala, conforme explicação da Géssica Neves. Primeiro, é o teto caixotão belíssimo de madeira além de um lustre igualmente belo. É um estilo típico de teto de luxo. No rodapé de gesso há várias representações de cenas relacionadas a alimentação. Segundo, a técnica utilizada para revelar as primeiras pinturas, considerando que o prédio sofreu várias reformas ao longo do tempo. A técnica é a prospecção onde se retira as camadas de tinta até chegar na original. Esta técnica tem como objetivo não só estudar a estrutura arquitetônica como também avaliar sua evolução histórica. Assim foi revelado uma pintura floral muito bonita.

Riqueza detalhes: anjos com asas de borboletas

Passamos agora para outro espaço que é a sala de espera. O destaque como sempre é o teto. São anjos com asas de borboleta. Os anjos representam os jovens, futuro da nação e as borboletas, representam as transformações pelas quais passava a sociedade brasileira naquela época.

Esta é a entrada do Palácio. Preste atenção a cada detalhe. Quando cheguei,aguardei um tempinho para fazer a visita e não me dei conta da beleza e história deste espaço.

Entrada principal do Palácio

A Géssica me explicou cada detalhe. No centro temos o brasão da República que não é o atual. A grafia do nome Brasil ainda é com Z. Ao seu redor temos uma coroa de fumo, produto comercializado na época.
Ao redor do salão temos a coroa de café, outro produto muito forte para a economia da época. Nesta coroa há os nomes dos estados brasileiros e em cada canto do teto há datas importantes para a história do Brasil: 7 de Setembro de 1822 ( Independência do Brasil), 2 de Julho de 1823 ( Independência da Bahia), 15 de Maio de 1888 ( Abolição da Escravatura) e 15 de Novembro de 1889 (Proclamação da República) .


Coroa de fumo e brasão da República. Qual o significado?

Observe também que há uma espécie de corda trabalhado no estilo manoelino que liga todos os estados aos produtos da economia e as datas já citadas.

E as colunas? São de mármore… sabe de nada inocente (rs). Não é mármore não. É um tipo de revestimento feito em gesso que imita o mármore chamado escaiola. O piso é de mármore (de verdade!) tipo verona (rosado) e carrara (branco).
Ao fundo temos uma espécie de fonte com uma escultura nua deitada que representa o poder centralizador e talvez seja uma homenagem ao Rio São Francisco.


Representação do poder centralizador


Degraus franceses, ferro inglês e galos ao pé da escada que representam as virtudes...

Agora, vamos subir as escadas com degraus franceses e corrimão de ferro inglês e em sua base dois galos que representam a virtude moral e civil. Fique atento as paredes no estilo rococó. E o destaque nesta escada é a imagem de Tomé de Souza por Giorgio de Chirico, pintor italiano .


Primeiro Governador geral do Brasil, fundador de Salvador, Tomé de Souza


Mais um teto de detalhes belíssimos
Chegamos no primeiro andar e vemos outro teto com os nomes dos estados e os símbolos do comércio que era muito forte naquela época e o símbolo da indústria que se desenvolvia.

Neste espaço, de frente para a Praça municipal ao lado direito temos o que era Sala do Governador ou Sala Pompeana, aqui foi o gabinete de Antônio Carlos Magalhães, último governador a despachar no Palácio Rio Branco. Hoje funciona anexo da Secretaria de Cultura do Estado.


Cada parte do teto com o nome dos estados brasileiros
Algumas pessoas dizem que a Bahia não tem notoriedade intelectual no Brasil. Mas é digno de nota que foi na Bahia que se fundou em 1724 a primeira Academia de Intelectuais do Brasil, chamada de Academia dos Esquecidos e sua sede era no Palácio Rio Branco. A academia era composta por brasileiros membros da elite intelectual e que tinham a responsabilidade de colher informações sobre o Brasil e enviar tais informações para Portugal. Este material seria anexado a monumental História de Portugal.

Que sala é esta?

 Sala dos Espelhos

Pois bem, esta é a Sala dos Espelhos onde ocorriam os bailes e festas. Cadeiras e sofás no estilo Luiz XV, rei francês. Não é como a sala dos espelhos do Castelo de Versailes, mas tem seu humilde glamour. Os móveis não são daquela época mas refletem o estilo daquele tempo. 

Caminhando pela sala dos Espelhos procure por este anjinhos:

Anjos e harpas, símbolos de harmonia e alegria

Eles representam a harmonia e alegria dos momentos festivos. Logo acima, atrás deles, ficavam os músicos que animavam os presentes no salão.

Sala Verde que guarda uma preciosidade...

Depois temos a Sala Verde. No teto, há margaridas em que cada miolo representa os governadores que estiveram na Bahia, suas pétulas representam os acessores e as rosas, símbolo da maçonaria. Mas o destaque é esta obra:

Estamos diante de uma pintura única!

Esta é uma obra de Antônio Parreiras, pintor fluminense contratado pelo governo da Bahia para registrar em tela as cenas reais da luta pela Independência. A tela se chama O Primeiro passo para Independência da Bahia. O cenário foi pintado no local, na cidade baiana de Cachoeira, e no momento em que os fatos aconteciam. No centro da gravura vemos Manoel Soledade, que tocava tambor no Regimento das Milícias e foi atingido pelas tropas portuguesas e morto.

Por tanto, estamos diante de uma pintura única. Há uma cópia desta em tamanho menor na Câmara municipal de Cachoeira e com algumas modificações.

A próxima sala foi totalmente reformada e possui pinturas das sacerdotisas do deus Baco, deus do vinho.


E a visita guiada chega ao fim. Agora, você pode conhecer o Memorial dos Governadores. Escreverei sobre este espaço em outro post.

Praça Municipal ou Tomé de Souza vista de uma das janelas do Palácio Rio Branco.

A visita dura mais ou menos 35 min. E o preço? Acredite se quiser, é grátis! 
A maioria das pessoas, entram no museu apressadas, tiram fotos e saem sem se dar conta de que estão diante de um patrimônio de beleza arquitetônica e histórica muito importante para a  Bahia e para o mundo.

Fica aqui minha dica: se você estiver na Praça Municipal, e tiver tempo, não pense duas vezes, entre para conhecer o Palácio Rio Branco.



Endereço: Praça Thomé de Souza
Horário de visita: Terça a sexta-feira das 10:00h às 18:00h
Sábado e domingo das 09:00h às 13:00h
Contato (71) 3116-6928
As visitas guiadas ocorrem a cada meia hora. O último horário é as 17:30 e 12:30 (sábado e domingo)

12 comentários :

  1. Amei!!!! Seguramente farei isso e vou dá uma de Guia usando as informaçoes deste post pra explicar a quem vai me acompanhar. Obrigada

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    1. Oi Nanda!
      Que bom que você gostou. A intenção é essa mesmo, compartilhar o conhecimento.
      Pra mim, foi uma descoberta e tanto, além de ser gratuito.
      Bjs!

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  2. Quantas coisas lindas tem a Bahia!!!!

    Bjs, Neza

    Cláudia

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    1. Oi Cláudia,
      Gostei muito da conservação dos tetos. São verdadeiras obras de arte.
      Bjs!

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  3. Muito bom!!!!Vou sempre no Pelourinho, mas ainda não entrei no Palácio..Nem precisa dizer que agora sim vou lá...Bjs, Obrigada!!

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    1. Oi Cris,
      Eu também desconhecia uma beleza tão próxima dos soteropolitanos.
      Obrigada pela visita.
      Bjs!

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  4. Desde criança admiro esse palácio mas achava que, por ser do governador, não se podia visitá-lo. Parabéns pelo esclarecedor post e pelo bom gosto das fotos! Edison Lima

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    1. Olá Edson,

      Incrível como algumas belezas ficam "escondidas" da gente. Mas como podemos ver a visitação é pública e o palácio muito bonito.
      Muito obrigada pela visita!
      Abraços.

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  5. Excelente, parabéns pelo belíssimo trabalho. Tive oportunidade de conhecer cada detalhe deste palácio quando fiz minha graduação em turismo.

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    1. Olá Lu!

      Sempre bom relembrar e revisitar nossa história.

      Muito obrigada pelo comentário e visita!

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