segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Campo de concentração de Sachsenhausen

Conhecer Berlim foi uma das grandes experiências na minha viagem. Sempre leio relatos de pessoas que sobreviveram e outras que morreram em campo de concentração por causa de sua neutralidade política. Assim, nas pesquisas antes de viajar, conhecer um campo de concentração me deixou ansiosa.

Entrada das instalações do Campo de Concentração Sachsenhausen

Portanto, reservei um dia inteirinho para conhecer o campo de concentração de Sachsenhausen que fica em Oranienburger a uns 40km de Berlim.

Não é difícil chegar em Sachsenhausen. Mas eu sugiro que você vá cedo, pois de Berlim até a estação de Oranienburger você vai de trem, e de lá até o museu são 20 minutos de caminhada por ruas sinalizadas ou de ônibus que leva menos de 10 minutos, mas que só passa de hora em hora. Eu fui de ônibus.

A entrada é gratuita e paguei 3 euros pelo audioguia, disponível em vários idiomas inclusive espanhol, com direito ao mapa do local.

Vou contar um pouquinho da história deste campo para entendermos o contexto de sua atividade.

De 1933 até 1934, na cidade de Oranienburger, funcionou o primeiro campo de concentração da Prússia, controlado pelas forças da SA ( Divisão de Assalto) que usava e abusava do terror contra aqueles que eram contra o nazismo. Depois que a SA perdeu o poder, a SS ( Schutzstaffek), polícia que protegia Hitler e seus interesses, assumiu o campo que foi fechado em Julho de 1934. Neste período foram presas mais de 3 mil pessoas e umas 16 foram mortas. Lembrando que este campo não é o mesmo de Sachsenhausen.

Em 1936 é construído o campo de concentração de Sachsenhausen e de 1936 até 1945 o campo esteve sob comando da SS sendo o primeiro campo de concentração construído após a nomeação de Heinrich Himmler, chefe da SS. A posição do campo era privilegiada, próximo a capital do Reich, Berlim, e local de treinamento do pessoal da SS. Mais de 200 mil pessoas foram presas e outras tantas foram mortas de 1936 a 1945.

De 1945 até 1950, após o término da Segunda Guerra Mundial, os soviéticos ocuparam este campo que passou a receber os funcionários de baixa patente nazista, os condenados por tribunais soviéticos e pessoas ligadas ou não ao nazismo. A partir de 1948 se tornou o maior campo na zona de ocupação soviética. É importante mencionar, que os soviéticos não utilizaram o crematório nem as instalações de extermínio. Até sua desativação, neste período, passaram cerca de 60 mil prisioneiros e morreram uns 12 mil por vários motivos.

Agora vamos conhecer as instalações do campo de concentração.

A visita começa pelo muro onde há várias fotos que mostram distintos momentos do controle nazistas sobre o campo e a libertação dos presos. Esta é a rua principal por onde entravam os prisioneiros. São cenas para reflexão.
A vida no campo de concentração

Prisioneiros com o uniforme listrado e algumas cenas de como viviam os soldados nazistas.
Seguindo o roteiro, passei por algo que a princípio parecia um cemitério, mas na verdade eram placas comemorativas e esculturas em memória de grupos de prisioneiros ou prisioneiros individuais que foram mortos no campo.


Na porta do campo, há a famosa frase alemã:

Arbeit macht frei : "o trabalho liberta"
Esta frase passava a ilusão de que por meio do trabalho eles poderiam ter a liberdade. Por este portão, passavam os presos que poderiam sobreviver ou morrer neste campo.Tenhamos em mente que este não era um campo de extermínio como o de Auschwitz na Polônia.

Passei o portão e andando mais um pouco cheguei nos barracões que serviam de alojamento. Há exposições em cada barracão com biografias, utensílios, roupas e fotos explicando como era a vida dos prisioneiros nestes alojamentos.
Cerca de 400 homens dividindo este mesmo espaço.
Imaginei centenas de presos judeus, em um espaço tão pequeno e sob condições indignas. Nos dormitórios se espalhavam mentiras, se especulava a situação da guerra e assim se instalava um clima de medo e desconfiança.
Local para banho
Centenas de pessoas acordavam sob gritos e tinham que se lavar rapidamente e fazer suas necessidades sob vigilância dos nazistas. Tudo era cronometrado.

Depois, vi a zona neutra.
Zona neutra- quem se atrevesse a passar esta área era fuzilado imediatamente
Caminhando mais um pouco, cheguei na antiga cozinha dos prisioneiros, hoje há ilustrações e objetos que representam os acontecimentos da história no campo de Sachsenhausen, entre eles, me chamaram atenção:


Instrumento de tortura como mostra a ilustração acima desta foto.
identificação dos prisioneiros por meio de triângulos, cores e letras:

Triângulo vermelho: comunistas, dissidentes políticos/ Triângulo verde: criminosos comuns/ Triângulo amarelo: judeus.
As letras indicavam os países de procedência: F de França, U de Hungria, P de Polônia.

Triângulo roxo: usado para identificar os objetores de consciência como por exemplo as Testemunhas de Jeová.
Uma foto que me chamou atenção foi esta:


A foto acima, é uma representação do momento em que os soldados jogam a comida para os presos que brigam entre si para apanhar o que podem. Vemos na ilustração os soldados pisando e cães atacando os presos. Para mim, é uma cena humilhante em que mostra o desespero para sobreviver no campo de concentração.

No subsolo da cozinha, podemos visitar um local que servia para os prisioneiros descascar batatas. É um local frio, amplo e vazio o que chama atenção são pinturas como estas:



Segui em frente e depois de passar pelo muro em que se encontra documentos que relatam os assassinatos no campo, cheguei ao Memorial das Vítimas do campo de concentração.

Monumento em memória das Vítimas do campo de concentração de Sachsenhausen de 1936- 1945
Quando comecei a ler e ver as fotos fiquei ainda mais estarrecida em pensar o que levaria alguém a planejar a morte de milhões de pessoas e como seriam tratadas antes, durante e depois da sua morte.

Fornos crematórios- milhares de pessoas foram vítimas de tamanha barbárie

Depois da morte na câmara de gás os corpos eram incinerados.
Olhei esta foto e fiquei curiosa em saber de quem se tratava.


Este era Paul Sakowsky, um dos prisioneiros do campo que passou a ajudar a SS e maltratou presos se tornando um carrasco. Foi designado a cuidar da câmara de execução e assim incinerou cerca de 30 mil presos. Ele foi condenado a prisão perpétua e trabalho forçado e faleceu em 2006.

Os executados pelos nazistas: combatentes da resistência, objetores de consciência e condenados por tribunais nazistas

Os dentes dos presos eram arrancados antes dos corpos serem incinerados.
Em 22 de abril de 1961 foi inaugurado o Memorial de Sachsenhausen com uns 40 metros de altura. Nesta mesma data em 1945, ocorreu a Marcha da Morte, onde milhares de judeus presos saíram sem rumo ou se deslocaram para regiões onde a resistência nazista era maior. Muitos morreram em florestas , em zonas rurais em razão do frio congelante e exaustos. Ou seja, não tiveram um enterro digno.O objetivo era que o maior número possível de pessoas viessem a morrer e assim, poupava a SS em gastar com o transporte de milhares de presos, como também não deixar vestígios das mortes.

Monumento em lembrança e comemoração aos prisioneiros do campo erguido em 1961



Alguns dos prisioneiros que foram mortos em Sachsenhausen por se recusarem a pegar em armas e apoiar o regime de Adolf Hitler:

Gustav Burchner


Era um fazendeiro e barbeiro que se tornou Testemunha de Jeová e devido suas convicções religiosas foi morto no campo de Sachsenhausen em 1939 de causas desconhecidas.

August Dickmann

Primeiro objetor de consciência morto em Sachsenhausen
August Dickman era Testemunha de Jeová e Heinrich Himmler, chefe da SS, ordenou sua morte por fuzilamento na frente de todos os presos por ele se recusar a prestar serviço militar em apoio ao nazismo devido sua crença religiosa. Sua história pode ser ouvida no audioguia e há no muro do campo os documentos que ele deveria assinar renunciando sua fé.

Para reflexão:
O holocausto e a escravidão são consideradas as maiores atrocidades cometidas contra a humanidade. Visitar um campo de concentração nos leva a um momento de reflexão e nos transporta para uma situação em que direitos foram violados e que a perspectiva de uma vida melhor foi suprimida. Ao mesmo tempo, percebemos a importância de respeitar as diferenças e valorizarmos a liberdade que temos.

Memorial e Museu de Sachsenhausen

Valor: gratuito
Audio guia: 3 euros
Horário funcionamento: 15 de Março até 14 de Outubro- diariamente das 8:30 ás 18:00
15 de Outubro até 14 de Março- diariamente das 8:30 às 16:30

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Um comentário :

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