quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O olhar de Lina Bo Bardi sobre Salvador

Sem querer, entrei no Teatro Gregório de Matos, que foi reinaugurado há pouco tempo, com minha irmã,  e fui contemplar a exposição "Amar a Lina". Neste post, vou escrever um pouco sobre esta arquiteta italiana, que se encantou com a Bahia e tem algo a nos ensinar, quer sejamos turistas ou moradores das cidades dinâmicas.


 Biografia de Lina

Achilina Bo nasceu em Roma, em 5 de Dezembro de 1914, época da Primeira Guerra Mundial. Estudou na Faculdade de Arquitetura de Roma e depois se mudou para Milão na década de 30.
Em 1946 casou-se com o jornalista Pietro Maria Bardi e em viagem de lua de mel, escolheram o Brasil para fixar residência. Se encantam com o Rio de Janeiro, se instalam em São Paulo e visitam a Bahia. E foi, numa destas visitas que Lina desenvolve uma paixão pela Arte Popular que dialogava com a Arte Moderna.


ralador de cozinha


candeeiros


Com sensibilidade, de coisas simples do dia a dia, Lina extraiu muita arte e poesia. Um candeeiro, um lenço rendado, uma colher de pau, um ralador, as carrancas do São Francisco e muito mais. Ela viajou pelo Recôncavo e Sertão da Bahia, na companhia de Mario Cravo Jr, e ficou admirada com os costumes e a arquitetura das cidades como Cachoeira e Santo Amaro da Purificação. Foi assim que ele compreendeu um Brasil mestiço que se expressava através de hábitos, costumes e festas populares.

cerâmica do Recôncavo



Lina realizou grandes projetos no Brasil, um deles é o do famoso MASP ( Museu de Arte de São Paulo). Mas neste post vou destacar alguns projetos da Lina aqui em Salvador.

Lina e o MASP,  na Avenida Paulista
Em 1958, quando veio à Salvador, reformou e dirigiu o Museu de Arte Moderna da Bahia e projetou a reforma do Solar do Unhão. Sua ideia em torno deste projeto era integrar a população ao museu oferecendo oficinas e cursos. E há 30 anos o MAM oferece estas oficinas. 

projeto reforma do Solar do Unhão

No site do Museu encontrei a seguinte informação que me fez refletir:
"O espaço devia integrar-se à comunidade, por meio de cursos de formação, não apenas pelas crianças, mas também adultos e artistas. As distinções entre arte popular e erudita, antiga e moderna não deviam existir. Lina desejava implementar no Brasil algo que aconteceu na Itália, onde o governo reuniu criadores e artesãos para a feitura de um novo produto exportável. Na Bahia, em parceria com Mário Cravo, desenvolveu o Centro de Estudo e Trabalho Artesanal (CETA)."

o lindo pôr do sol visto do mirante do Solar do Unhão
No texto de abertura da primeira exposição do Museu, em 1963,  lemos o seguinte:

"Chamamos este Museu de Arte Popular e não de Folklore por ser o folklore uma herança estática e regressiva, cujo aspecto é amparado paternalisticamente pelos responsáveis da cultura, ao passo que arte popular (usamos a palavra arte não somente no sentido artístico, mas também no de fazer tecnicamente), define a atitude progressiva da cultura popular ligada a problemas reais."
Que percepção maravilhosa da Lina em quebrar estas barreiras entre as artes e agregar num espaço a produção de diferentes vertentes.


Na década de 80, Lina participou da restauração do Centro Histórico de Salvador e daí, paramos para pensar como ela encontrou este local naquela época de degradação e abandono. Algumas coisas que ela projetou não se concretizaram. 

Contudo, lendo um artigo muito interessante da arquiteta Jane Hall, da British Council Transform, que esteve em 2013 em Salvador pesquisando as obras de Lina Bo Bardi, percebi como o Centro Histórico poderia ser muito mais bem aproveitado:
"Infelizmente, devido ao governo conservador em ascensão na época, Salvador foi restaurada de forma a celebrar o surgimento colonial e monumental da arquitetura, em vez de priorizar os investimentos nas condições econômicas e sociais do povo. Apesar disso, Salvador ainda tem o papel de sítio arqueológico nos trabalhos posteriores de Lina, que fez tentativas de abordar esses temas."

projeto piloto da Ladeira da Misericórdia

Lina participou também do projeto de restauração da Casa do Benin e do projeto piloto na Ladeira da Misericórdia, que envolvia a construção de um restaurante (Coaty), mas infelizmente, está abandonado e a ladeira interditada.


Ladeira da Misericórdia          Foto: site Vitruvius


Mas o que despertou meu respeito pelo trabalho da Lina, foi ler trechos de uma coluna que ela escrevia, em 1958, intitulada Crônicas de Arte, de História, de Costumes, de Cultura da Vida , no jornal Diário de Notícias de Salvador, onde Odorico Tavares era editor. Nesta, ela expressava seu olhar crítico sobre a cidade e seu entorno, o contexto social, as políticas, as artes, a cultura e os costumes da vida. 

Note nos trechos abaixo, que há muito tempo ela falava acerca de especulação imobiliária em Salvador, derrubadas de edifícios arquitetônicos para dar lugar ao "progresso", integrar o antigo ao novo sem cair no folclore barato e destacou o verdadeiro papel do arquiteto e projetista. Confira:


que tipo de arquiteto, urbanista ou projetista temos hoje?

o que aconteceu com as manifestações populares? se tornaram folclore barato?

Daí me pergunto: será que nós, moradores e/ou turistas, temos este olhar sobre as cidades pelas quais passamos? 

Me propus este exercício: caminhar por Salvador ( e outros lugares) com um pouco deste olhar da Lina Bo Bardi. Um olhar mais humano e antropológico.

Lina faleceu em 20 de Março de 1992, em São Paulo, em plena produção cultural.

Daí, ao ler os textos sobre Lina, fui me debruçando sobre outros estudos acerca deste assunto tão polêmico que é "revitalizar" e "requalificar" os espaços em Salvador, e encontrei um texto fabuloso sobre o assunto, como este: Por que Pessoas Estão Ficando Desabrigadas e Casarões Estão Sendo Demolidos no Centro de Salvador? de Nelson Oliveira e Antonello Veneri. É um texto enorme, mas vale cada palavra lida.

A exposição esteve em cartaz até o dia  11 de Agosto no Teatro Gregório de Mattos.


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